Horizontalização

"Na horizontal todo mundo sabe muito bem. Acontecem as melhores coisas da vida. Não é coisa qualquer, mas sempre uma, assim, mais afetuosa. Se não é com alguém, é com si próprio: é na horizontal que nós organizamos nossos pensamentos. Foi numa dessas aí, na horizontal (ou deitado, como preferir) que, matutando no escuro, ele se organizou um pouco. Chegou a pensar em inventos e revoluções, amores, desenhos, frutas e palpites. Aliás, sempre foi um grande palpiteiro o menino de quem te falo. Uma vez, ainda quando morava na capital, palpitou na cabeça de uma linda jovem brasiliense, Carlota. Loira, sardenta, daquelas que sorriem com a boca fechada, vergonha de mostrar os dentes embora tão brancos. Coisa de menina. Pois é, tanto ele palpitou nos ouvidos da jovem linda moça que acabaram na horizontal os dois. Foi uma noite maravilhosa, e como. Lábios de mel tinha a menina-moça. No outro dia ele, então escreveu um poema, lindo, de morrer, para a moçoila que ao lado se deitava e aos poucos se despia. Tal qual foi a velocidade do encanto da sardenta que mais uma vez restaram os dois na mesma horizontal, e logo, partiu. Foi pra São Paulo e, como te disse no início do relato, estava ele na horizontal denovo, desta vez sozinho e pensativo. Bom, deixando de estória, o moço resolveu-se ao levantar: Mais poemas, mais mocinhas. Mesmo que essas outras não fossem tão inocentes como a tal loira da capital, mas, se horizontalizassem, estava de bom tamanho. Foram poemas e mais poemas e mulheres e mais raparigas deleitando-se com o jovem sabido. Não tardou e mais uma vez se viu sozinho, na horizontal, escrevendo mais e mais pra distribuição entre as donzelas paulistanas. O resultado sempre o mesmo, era algo meio surreal e ao mesmo tempo diretamente proporcional. Quanto mais poemas, mais mulheres. Foram anos ditando poemas que se perderam pelos suspiros das paulistanas, das cariocas e de toda a gente que viera morar na maior e mais movimentada cidade brasileira. Na sua terceira e última deitada a sós com si próprio, o menino, agora moço, pensou: Industrialazação de poemas, capitalização do amor. Sua máquina do amor era uma poetisa mecânica. Tantos poemas foram feitos, e seu valor foi se perdendo. Tantas horizontalizadas sem sentimento. Nunca mais segurou uma caneta, nunca mais se deitou com amor."
Escrito por Edu às 15h31
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E espera
"Era banal a tentativa de deixar de lado tudo aquilo que tinha acontecido. Era tão banal que ele nem sequer tentou. Refez as malas que tinham sido desfeitas a pouco e, a outro pouco, antes ainda, tinham sido feitas em primeira mão. Nem teve tanto trabalho assim, foi fácil: só colocou tudo que tinha lá dentro, tudo. Foram pro baú obscuro de alças as meias, as cuecas, as camisas (não mais engomadas) as calças (de todas as cores), os cinturões, os vinhos e as roupas de cama. Quem iria querer deitar-se em roupa de cama de quem estava pra ser despejado!?
Despejado, o despojado foi saindo sorrateiro, manso como o felino persa que nunca deixa vestígios, mas, veloz como ventos de outubro. Aquele janeiro estava sendo o mais diferenciado entre os últimos dez. Havia dez janeiros na mesma casa de campo; na mesma mesa de jantar, sem nunca uma briga tal qual essa que culminou num trágico adeus.
O adeus não era um adeus normal, pra combinar com o início turbulento de ano; outrora o reveillón havia trazido mais felicidade. Empunhou então, o culpado, não desculpado, sua mala-baú, pelas alças de couro não mais nobres que as botas que calçava. A casa foi ficando distante, assim como o próximo janeiro.
O despojado, agora já despejado, se foi: sem lágrima. Esperando onze meses passarem."
Escrito por Edu às 23h49
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