é Natal
"Lembro-me pouco daquele Natal. Claro que muito bem dos convidados, pois como sempre estavam lá meus avós maternos, os tios e tias, pais, irmãos, primos e primas. Aliás, prima, que por desvio do destino está um pouco (bem) afastada. No entanto todos um pouco mais jovens e com os cabelos menos grisalhos. Inclusive eu, que ando sentindo a falta de alguns fios do chamado couro cabeludo.
Depois de um Natal repleto de comidas doces, kiwis no arroz, maçãs no tender no ano anterior, e da ilustre resposta do menor dos primos ao papai-Noel: "eu quero a roupa do tartatugas-ninja e só" - o Natal desse ano chegava com um pouco mais de maturidade da minha parte.
Era anos noventa - adorava gravar Laura Pausini e Guns n´Roses nas fitas K-7 e ainda durmia em três no quarto com meus irmãos e dividia os ármarios, tanto os de roupa quanto os de brinquedo.
Naquele ano que tinha quase terminado, descobri uma farsa. Uma grande surpresa que abala as estruturas de toda criança. O papai-Noel não era Noel, mas Marcinho, tio meu de uns cento e tantos quilos que havia me enganado como ninguém por longos anos.
Marcinho devia estar se sentindo em dívida comigo, o pequeno ex-bobo, que ainda lembrava das barbas do ex-Noel com um certo rancor do tio. Nem Noel nem ninguém, porém, tiravam o sorriso do meu rosto em época de férias. Costumávamos ir viajar pra São José e voltar depois de longa estada. Eu passava meio tempo com os avós e meio tempo com os primos japoneses numa chácara ao longe, na outra borda do Rio Pardo. Meiava o tempo como quem arranca a tampa da laranja pra ver se está doce. Eram quase vinte e seis vinte e sete-avos do tempo ao lado dos garotos de olho meia-vida.
Quase na hora da ceia é a hora do amigo secreto. Dona Marina, sempre muito religiosa, faz uma oração e meu avô Márcio lê o evangelho segundo Jesus Cristo. Depois do respeito ao quase bi-milenar Cristo vinha o que mais me interessava na época: brinquedos.
Eu devo ter tirado meu padrinho Kawana, não me recordo. Ele sempre foi a minha sombra maior nos amigos secretos. Mas a surpresa mesmo foi quando o sorridente Marcinho apontou-me o dedo e fez toda aquela ladainha de amigo secreto. Ele tinha me tirado. O embrulho era pequeno. Talvez fosse um embróglio. Não o presente que eu esperava. Eu queria brinquedo! Já bastavam as roupas da tia e os livretos da avó. Meu caso era com a diversão.
Como todo menino que ganha um presente logo rasguei o pacote para desespero de mamãe - velha mania de guardar embrulhos. Não sobrou nem a fita durex. O sorriso veio, meio que sem graça no meu rosto.
Que diabos seria aquilo? Um cd de um homem barbudo... barba castanha. Não era Noel. - Obrigado tio.. - sempre aprendi a ser educado com os mais velhos. E, assim, esperei a ceia de Natal. O mesmo arroz, o mesmo kiwi e a mesma maçã. Comi como minha barriga pedia. Robusta como minhas bochechas e minhas pernas. Típico gordinho.
Depois da ceia, o último encontro com Marcinho. Em vez de estar brincando de lego ou outros com os demais, fui pra biblioteca com Marcinho. Experiente e sempre atualizado, ele então, usando uma faquinha sem corte, de metal, tirou o plástico do meu novo cd e me mostou:
-Esse, é Raúl. Raúl Seixas. Aquele, da mosca da sopa, lembra!? - como não.. eu adorava a propaganda na tv!- Pra ouvir, você coloca o cd aqui e aperta esse botão, tá? (risos) A música que você deve gostar mais é a onze. pra mudar é este botão.
Foi meu primeiro Natal com um presente menor que meio metro cúbico de pacote. Perdi o Noel e os brinquedos, mas ganhei outro gordinho que soube muito bem me agradar."
Escrito por Edu às 12h08
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